segunda-feira, 20 de agosto de 2012

entrar naquela casa sempre me traz fortíssimas lembranças de quando eu morava lá, talvez por isso eu tenha esse sentimento ambíguo de familiaridade misturado com um certo incômodo.
enquanto subo as escadas percebo que os degraus me parecem agora bem menores do que quando eu subia eles todo dia, mas ja tinha vindo aqui outras vezes, será que as coisas vão se tornando cada vez menor aos nossos olhos? acho que meu estranhamento aumenta proporcionalmente de acordo com minha idade, e eu me sinto velha.
Encontro conforto na decoração brega e extremamente portuguesa da minha vó; porta-retratos espalhados pela casa com fotos dos netos em todas as idades possíveis, bibelôs, cristais, lembrancinhas de casamento e muitas outras quinquilharias inúteis. abraço minha vó com saudade apesar de toda rigidez com a qual ela nos criou e deixando as surras na palma da mão e as sonecas obrigadas depois do almoço de lado, me sento com meus irmãos junto com ela para ver as centenas (talvez milhares) de fotos que ela tem guardadas. diversas vezes minha vó diz ao meu irmão: 'não és tu nessa foto, toninho?' olho a foto em preto e branco na qual aparece minha vó muitos anos mais jovem ao lado do meu avô, de bigode e com aquele sorriso de canto, e 4 crianças: 'não vó, aqui é o tio carlos...' ela já não se situa mais no tempo. percebo também que ela esquece muito nossos nomes e o das pessoas nas fotos, confundindo as fotos no museu do louvre com algum lugar em barcelona, e me sinto mais velha ainda, talvez mais que minha avó deteriorada.
subindo ao andar de cima, percebo que o tamanho dos azulejos preto-e-branco ficou pequeno demais para meus comportar meus dois pés, ou meus pés foram que ficara grandes demais pros azulejos? lembro de quando criança colocar ambos os pés e sobrar muito espaço num desses.
mas o que doeu mesmo foi subir no terraço e ver a vista maravilhosa de são paulo que aquele lugar tem, meu coração paulista dói e eu desejo morar lá ainda. além de claro, me sentir velha de novo.
abraço meu irmão e ela diz em meu ouvido enquanto lágrimas escorrem teimosamente pelo meu rosto: 'talvez tudo tenha sido melhor assim...' concordo e respiro fundo, aceitando uma verdade inegável: me tornei uma pessoa diferente por conta das circunstâncias...mas o que seria de nós hoje se tive\éssemos ficado lá? difícil dizer, é um labirinto de questionamentos, todos inúteis.
Na hora de ir embora minha vó se mostra mais lúcida do que nunca e diz: 'dá estes panos de prato que eu pintei pra tua mãe'. sorrio e concordo, sabendo que apesar de tudo, tem coisas que nunca mudam.

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